'Da boca ao ânus, estava tudo destruído', diz mulher que adoeceu após um relacionamento abusivo

A educadora Tulipa, 42 anos, tinha tudo para ser considerada alguém realizada na vida. Bem-sucedida profissionalmente, chegou a dar aula em três universidades ao mesmo tempo. Casada por 15 anos, é mãe de três filhos. Tinha uma vida confortável no interior do estado até que percebeu uma coisa que a aterrorizou: estava vivendo um relacionamento abusivo.

Mais do que isso: estava ficando doente por ele. Gastrite, esofagite, pedras nas vesícula e hemorroidas se juntaram ao diagnóstico de uma depressão profunda e de uma ansiedade generalizada. “Minha vontade, na época, era de ter um câncer maligno e morrer”, conta, em depoimento ao CORREIO.

Aqui, a pedido dela, omitimos quaisquer informações que possam identificá-la, a exemplo da cidade onde viveu e dos locais onde trabalhou. Também a pedido, decidimos batizá-la com o nome fictício de uma flor: a tulipa. São aquelas as flores que também podem significar um amor verdadeiro e dedicado, também podem simbolizar um amor sem esperança. Ao mesmo tempo, tulipas – que renascem na primavera – também podem ser símbolo de um recomeço.

Confira aqui o depoimento dela:

Fui casada durante quase 15 anos e estava morando em outra cidade do interior do estado. Comecei a sofrer uma série de violências psicológicas. Nunca houve violência física, mas, no último ano (de casamento), em 2014, eu me via refém. Ele dizia que eu não fazia nada certo. E dizia tanto que eu acabei me convencendo que não havia nada de positivo em mim. Eu me via querendo morrer para deixar uma pensão para ele cuidar de meus filhos.

Chegou uma época que eu dava aula em três universidades ao mesmo tempo e tinha muito sucesso profissional, que ele não alcançava. Hoje, com a terapia, eu entendo que ele não suportava isso e não sabia como manter um relacionamento que fosse bom para ele e para mim. Deixei de fazer o doutorado logo após o mestrado porque ele não tinha nem mesmo terminado a graduação. Uma pessoa ainda disse para mim: ‘ele não vai aguentar’.

Um dia, ele disse exatamente isso para mim: ‘você só serve para ganhar dinheiro’. Até que, em setembro de 2014, eu sonhei com alguém falando para mim: ‘por que você ouve tudo isso dele? Vá embora’. Minha filha, que tinha 14 anos na época, já tinha dito isso; que era para eu ir embora. E comecei a pensar em procurar uma saída.

Em outubro, viemos para Salvador para votar para presidente. Não tinha transferido voto ainda. Viemos e fomos na casa de um amigo nosso, mas ele não quis saber de mim. Não me tocava. Eu abraçava, ele me empurrava. Na casa da irmã dele, ele fez uma grosseria. Quando voltamos, comecei a morar na sala de TV. Decidi comprar a passagem para Salvador. Minha vontade, na época, era de ter um câncer maligno e morrer.

Contei à minha mãe e ela, que tem uma casa em cima da dela, arrumou um pedreiro, limpou, pintou para mim. Fiquei de mudar no dia 26 de dezembro daquele ano. Antes disso, viajei com meus alunos para o Recôncavo e levei meus três filhos (a adolescente, mais velha, era a única de um relacionamento anterior, mas tinha sido criada por ele). Quando cheguei em casa, ele continuou dizendo que a culpa do casamento ter acabado era minha. Disse que ‘não me queria mais, não sentia mais desejo, mas era para eu ficar lá, que depois (o amor) voltava’.

Quando ele saiu para trabalhar, liguei para o cara da mudança e agendei para aquela mesma semana. Me mudei sem fogão, sem geladeira.

Fiquei num estado letárgico. O momento de adaptação foi muito complicado e ele continuava fazendo as mesmas coisas. Dizia que a culpa era minha, por ter ido embora. Em janeiro de 2015, decidi que não ficaria mais com ele. Leia Mais Aqui no Correio da Bahia.

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