Além da política: Vasco e seus torcedores precisam reavaliar discurso

Eurico Miranda pediu desculpas, mas colocou a culpa na oposição. Nenê reclamou da arbitragem. Torcedores se queixaram da ação da polícia. Mas o que foi visto em São Januário na noite de sábado tem, em parte, uma razão pouco discutida: o discurso que vem se enraizando entre vascaínos e encontrou numa derrota em casa para o Flamengo o catalisador derradeiro para explodir.

Isso vai além de quem está no comando do clube. Desde que começou a ter dificuldades, ainda no início dos anos 2000, o Vasco – e nisso é possível incluir dirigentes, torcedores e jogadores que passaram por lá durante este período – aprofundou um discurso de que todos estão contra a instituição. Da arbitragem sempre tendenciosa à imprensa maligna, todos querem derrubar o Gigante.

- Creio que o jogo não foi justo. Ainda mais quando a gente fez o gol. Mas é assim. É sempre assim contra a gente - chiou Nenê após a partida.

O problema é que parte da torcida absorve esse discurso. Eu cubro o Vasco há um ano e meio. Muitas vezes fui questionado sobre a abordagem da imprensa por pessoas de dentro e fora do clube. Gente que acredita que há favorecimento ao Flamengo. Que acham que há instrução para fazer matérias negativas sobre o Vasco. Torcedores que reclamam porque eu posto mais vídeo de confusão do que de festa da torcida.

O dia amanheceu em São Januário com provocações sadias e bem-humoradas dos vascaínos aos flamenguistas. Mas havia uma triste “premonição”: apitos pendurados, menções a "roubos" a favor do rival.

E o que aconteceu durante os 90 minutos em São Januário? Um gol anulado por causa de uma falta na origem do lance – por mais que as imagens mostrem que a decisão foi correta, quem está no estádio não tem esta perspectiva -, e a derrota para o maior rival, sempre favorecido na visão de muitos torcedores.

Todo o discurso construído nos últimos anos entornou o caldo. Os torcedores que se rebelaram não aceitaram perder para o Flamengo em São Januário nem ser "prejudicados".

Que fique claro: o que aconteceu em São Januário não é exclusividade do Vasco. Outras cenas, por outros motivos, ocorrem em estádios Brasil afora. Mas cada clube tem sua peculiaridade: quando se junta torcedores sugestionados para a briga com motivos viabilizados por anos de um mesmo discurso, o risco é maior.

O Vasco é gigante. Não precisa se reduzir a um papel de vítima. Foi pioneiro em muitas coisas, vanguarda na história do futebol brasileiro. Que adote novamente esta posição para tentar se recuperar de uma noite triste em suas páginas. Muitas questões podem ser debatidas, e uma delas é reavaliar seu discurso.

Por Felipe Schmidt/globoesporte.com

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