Sem salva de tiros por falta de munição, 90º policial morto este ano no Rio é enterrado

O enterro de mais um policial assassinado no Rio, o 90º este ano, foi acompanhado por cerca de 500 pessoas, no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. “Nunca vi tanta gente em um enterro”, disse o capelão da Polícia Militar, ao fim da cerimônia. Há apenas três anos na corporação, o soldado Fabiano de Brito e Silva, de 35 anos, foi morto com um tiro na barriga ao reagir a um assalto na Rua Clara de Araújo, em Nova Iguaçu, na manhã de sexta-feira.

Brito estava lotado no 20° BPM (Mesquita). Ele se dirigia ao trabalho, às 5h, quando foi assassinado. Como era evangélico, parentes e amigos cantaram louvores para homenageá-lo, enquanto um helicóptero da corporação despejava pétalas de rosas vermelhas, aumentando a emoção da despedida. Embora estivessem enfileirados, os policiais que receberam o cortejo, ao lado do lote 42098 — onde o corpo foi enterrado —, não dispararam a tradicional salva de tiros. Segundo um colega de Brito, “não teve tiro por falta de munição”.

Amigos do soldado disseram que ele era um profissional exemplar. Uedson Barreto, de 46 anos, vice-presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Nova Iguaçu, conta que Brito era um “homem honrado”.

— Era um guerreiro, um grande policial, homem honrado. Podia ligar a qualquer hora do dia e da noite que ele atendia prontamente. Pensava nos outros — conta Uedson.

Sonho de morar nos Estados Unidos

Farid Assed, que contratava o policial como segurança de sua empresa e de quem acabou se tornando amigo, conta que empresários de Nova Iguaçu estão pagando as contas do batalhão onde Brito servia (“temos que ajudar até nas refeições, senão os policiais não comem”, afirma). Segundo ele, Brito era o “número um” do batalhão.

— Brito tinha várias condecorações, era querido por todos. A maior apreensão de armas na cidade foi feita por ele. Quando um policial morre, também morre um pedaço da sociedade. E nenhuma autoridade veio aqui hoje. Acredito que o governador é o primeiro responsável por essa morte, pois a segurança pública do Rio está entregue às traças — desabafou. — Se não fossem os empresários não teríamos conserto de viaturas, combustível, nada.

Segundo ele, há poucos meses o policial fez uma viagem para Miami, onde vive sua irmã. Estava na rua, caminhando, quando viu um homem fugindo após saquear um mercado. Entrou em luta corporal com o sujeito e evitou a fuga.

— Ele era policial o tempo todo. O livro com as prisões feitas por ele tem centenas de páginas. Ele queria morar com sua família em Miami.

Durante a despedida, o capelão da PM indagou aos presentes: “O que é a vida? O que é a morte?”, antes de dizer que “nós somos apenas neblina, que aparece por um instante e logo se dissipa”. Fez-se silêncio durante a pregação, e só era possível ouvir, além do padre, o choro da mãe, inconsolável. Ela repetia em voz alta “ai, meu filho, por quê?”. Segundo o religioso, “a alma de Fabiano descansa: “seus olhos se fecharam neste mundo, mas se abriram para o mundo de Deus”. Palavras que fizeram as pessoas chorarem mais.

Os parentes de Brito não quiseram dar entrevista. Ele deixa esposa e três filhos, de 18, 10 e 5 anos de idade.

Comentários