Após informar que a Secretaria de Direitos Humanos
identificou que o juiz que autorizou que cinco crianças de uma mesma
família do interior baiano fossem retiradas do convívio com os pais e
entregues para adoção a quatro casais de São Paulo infringiu ao menos
dez aspectos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a ministra
Maria do Rosário sugeriu que o caso pode indicar a existência de um
esquema de tráfico de crianças.
“O caso desvela a existência de uma rede
organizada, de uma quadrilha que pode estar vendendo as crianças. Por
isso precisamos atuar de forma muito rigorosa”, disse a ministra,
revelando que há tempos o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já vinha
analisando o caso de Monte Santo (BA), com o acompanhamento de
autoridades federais.
Embora tenha evitado prejulgar a decisão do então
juiz da comarca de Monte Santo, Vitor Xavier Bizerra (que chegou a
dizer que tomou a decisão com base em um parecer técnico de uma
assistente social de que os pais das crianças eram negligentes), a
ministra questionou o modo e a rapidez com que as crianças foram
retiradas da casa dos pais, separadas, entregues a quatro casais de São
Paulo e levadas para outro estado sem que os parentes e o Ministério
Público fossem ouvidos.
“Essas crianças foram retiradas de casa em tempo
recorde. Em dois dias já haviam saído de seu estado de origem e viajado
para outro estado. Isso demonstra não apenas um ato de má-fé, mas um
ato, talvez, criminoso, envolvendo dinheiro e recursos, o que deve ser
apurado nas investigações [em curso]”, disse a ministra, acrescentando
que, se ficar comprovada a intenção criminosa, os responsáveis serão
responsabilizados de acordo com a lei.
Segundo Maria do Rosário, as famílias que receberam
as crianças também deverão ser ouvidas já que “no afã” podem ter
“adotado procedimentos inadequados”, procurando “outros caminhos que
não o sistema estabelecido”. De acordo com a ministra, após serem
retiradas de casa, as crianças não chegaram a ser inscritas nos
cadastros estadual ou nacional de adoção. O juiz, por sua vez, ao
autorizar que as crianças fossem entregues às famílias paulistas, não
respeitou a ordem de inscrição, dos cadastros, das famílias
interessadas em adotar um filho. A secretaria ainda está apurando
inclusive se as quatro famílias constam das relações de interessados na
adoção de crianças.

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