Marina Lima, 57 anos, não é uma pessoa exatamente simples: é simples
como fogo, se é que você me entende. Ou complexa como a água, pois não.
Várias das suas canções fornecem pistas para se tentar compreender o que
vai na cabeça dessa “jovem senhora de passagem”, como bem a definiu
Caio Fernando Abreu (1948-1996) numa crônica para O Estado de S. Paulo,
em 1994.
Os meus versos preferidos para tentar (não) entender
Marina, por exemplo, estão no começo da obra-prima Virgem (1987),
parceria dela com o irmão e filósofo Antonio Cicero: “As coisas não
precisam de você/ Quem disse que eu tinha de precisar?”.
Mas,
para além das canções, os fãs dessa carioca agridoce, bem-humorada e
complexa têm agora um manual íntimo e prático sobre o que ela pensa: o
livro Maneira de Ser (Língua Geral/ R$ 53/232 páginas). O livro será
lançado hoje em Salvador, na Saraiva do Iguatemi, às 19h.
Biográfica
sem ser uma biografia, a obra é uma espécie de melting pot do que é
Marina Correia Lima. Na primeira pessoa, ela fala de sua infância, da
família, amigos, da carreira e assuntos como moda, drogas, religião,
união gay e animais de estimação, além de incluir textos de Caio
Fernando Abreu, Haroldo de Campos, Nelson Motta e Hilda Hilst, entre
outros.
“Era um desejo antigo, mas a origem desse livro veio
mesmo através de Connie Lopes (produtora), em 2008. Ela me veio com essa
ideia. Como não queria uma biografia, uma ideia que não me interessa,
pensei nesse formato que mistura várias linguagens, mas que mantém o
caráter íntimo, pessoal”, explica Marina, radicada em São Paulo desde
2010 e que faz show intimista nessa sexta no club San Sebastian, às 23h.
Bases atualizadas
Numa
biografia tradicional, a intérpretes de clássicos pop como Fullgás
(1984), Uma Noite e Meia (1887) e Acontecimentos (1991), reviveria o
passado. Em Maneira de Ser, porém, Marina fala sobre “as coisas que
explicam o que ela é e onde está hoje”.
Assim, o primeiro livro
da compositora atualiza as bases que a formaram. Às vezes, o tema
abordado pode parecer trivial, como a questão de alisar ou não cabelo
crespo (NR: como aparece na capa do seu primeiro disco, de 1979,
originalmente o cabelo de Marina era crespo), mas adquire
um sentido comportamental na experiência descrita pela cantora.
“Isso
foi um problema durante um tempo da minha vida, especialmente na fase
do colégio. Era algo meio agressivo contra quem tinha cabelo crespo.
Quem tinha cabelo liso levava vantagem, ter cabelo liso era sinal de
status. Quando alisei meu cabelo pela primeira vez, muita gente me
cobrou. Vê se alguém hoje em dia cobra Beyoncé ou Rihanna por isso”,
afirma.
Com os cabelos de trancinhas do começo da carreira,
aliás, Marina aparece numa das fotos do livro ao lado de Bob Marley
(1945-1981) e Moraes Moreira numa festa, no Rio de Janeiro, em 1980. No
capítulo, ela comenta sobre drogas (“Nunca gostei de cocaína”) e defende
a descriminalização da maconha.
Na verdade, mais importante do
que levantar possíveis bandeiras, a cantora gosta é de debater questões
que julga pertinentes a partir de sua vivência. Foi assim com a
homossexualidade no passado ou com a nudez como forma de autoestima
quando, já quarentona, posou para a revista Playboy, em 1999.
“O
jogo virou em muitas coisas, já é possível desfrutar do prazer sem ter
culpa, agir de modo mais natural e, também, reivindicar direitos legais
como a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Não deveríamos estar
gastando energia ainda com isso a essa altura da vida”, diz.
Autocrítica
No
processo de feitura de Maneira de Ser, Marina Lima também reviu sua
discografia. E, como uma artista exigente e ambiciosa que é, não gostou
de tudo que viu. Ela faz ressalva, por exemplo, para o projeto Acústico
MTV, de 2003.
“Eu tenho muito orgulho da minha obra, como um
todo, na música brasileira, mas fazer disco depende de vários fatores e
com o distanciamento do tempo é que percebemos melhor os acertos, as
falhas. Não gosto do que fiz no Acústico MTV, não gosto da mixagem do
disco”, revela.
Ivete
E como o tempo é mesmo o senhor
da razão, talvez daqui a alguns anos Marina mude de opinião a respeito
do que fala no livro sobre a maior estrela da axé music, no capítulo
Ivete: “Tenho a impressão de que Ivete é a artista mais popular que o
Brasil já teve. Parece que ela já atingiu o nível de um Pelé, de um
Roberto Carlos. Uma unanimidade”.
Marina, você acredita mesmo
nisso sobre Ivete, não é exagero? “Acredito. Não tente dirigir meu
pensamento (risos). Eu vi o especial de Ivete com Caetano e Gil, na
Globo, e fiquei impressionada com o crescimento dela como cantora. Ela
tem o que os gregos diriam que é uma dose excepcional de fazer o bem
transbordar em termos de empatia”. Então, tá.

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